9.4.06

Parte 2 do conto abaixo.

- tem um tipo de planta sabe, que escorrega pelo muro e cobre ele todinho de pequenas folhas. que parece brotar de dentro do cimento e chupar o concreto, indo passar a língua de caule nos tijolos. ela pega e cresce com raminhos. e aí a gente pensa de onde porra vem aquela peste de plantinha trepadeira que parece insisitir em quebrar a lógica das coisas. ela vem do chão, do pé do muro, cresce sugando as frestas, da água que escorre com a chuva e deita no chão, na junção entre o muro e a calçada.


causava espanto na professora mostrando como crescia o verde das costas. estranha coisinha, cada vez mais isolada dos outros. aprendeu a ir ao médico toda semana, cada pedaço do corpo medido, examinado. expert em pele e sangue, a coisinha já usava os termos técnicos. a epiderme, a derme, os vasos sanguíneos que alimentavam o caroço, que não era mais caroço porque rompeu, o talo escuro que rompeu botou uma folha nas costas dela. crescia cobrindo espaços, não mais ganhava volume, não sangrava, não doia, só crescia. verde que te quero verde cada vez mais verde, a coisa das costas da coisinha.

- pai, me leva num biólogo.
- biólogo não é médico coisinha.
- mas entende de planta.

andava de blusa de alça. espanto. coisinha da coisa verde carregava uma planta nas costas. virou lenda na escola, atração do circo das crianças que ridicularizam as outras no intervalo, mostrava a todos com o sorriso digno do centro das atenções. vergonha não tinha, tinha cor, já que sempre foi pálida, jamais vista ou notada. estava até melhor a coisinha, o pai aparecia quase todos os dias, perguntava se ela estava bem, elogiava.

os outros moleques ao redor:

-dói?
-não.
-nasceu quando?
- vai fazer dois anos.
- tem que operar?
- não, tem que podar. senão cresce demais.
- eita.
- e o que é isso, esse talinho?
- é raiz adaptada, tem que cortar também. ela cresce pregando esse talinho em partes suadas das costas.

- mãe, tô virando árvore.

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