22.4.06

as costas da menina. quase fim.

Agora tinha certeza. E certezas são coisas que ela acreditava não necessitar ter, achava mesmo que ter certeza de alguma coisa tornava ela morta, fincada no chão das coisas incertas. Crescia como uma planta, tinha vivido como uma planta e havia se tonado uma planta. Levou para casa o vidrinho com o líquido branco que o médico mostrou, virou caso de estudo para a medicina, alegria de médico residente, chegava no hospital e era feita uma fila de estagiários e enfermeiras para ver a menina planta. Um deles, professor e doutor, disse com ar sereno no rosto e o distanciamento que só os piores médicos podem ter:" se a paciente Ana Clara Peixoto tivesse nascido no século dezenove, seria atração de circo" todos riram, inclusive a coisinha, que levemente, mas muito levemente mesmo, como um trem caindo no vácuo, falou: "seríamos todos doutor, a começar pelo senhor e seus alunos aí." O ar da sala mudou de cor, suavemente.

Cortar a coisa nas costas doia, mas o que doia mais era a sensibilidade ao sol, o calor em excesso da cidade a fazia sentir um torpor contínuo, com as costas de canto a canto ardendo. Se tomava banho percebia nitidamente o crescimento, novas folhas, novos ramos, a mesma pessoa magra e branca, de costas largas.
As costas de Ana Clara tinham raízes. A radiografia mostrava que a coisinha estava com a coisa fincada na coluna vertebral, brotava de dentro da medula espinhal. Certa feita, fechada no quarto, cortou-se levemente no antebraço, visco branco saltou aos olhos, seiva que tornava-se quase transparente diante da luz. Tinha a impressão que a pele descamava, confirmou ao puxar com a unha uma parte da pele do ombro direito:

- mãe, vai começar o outono.
- mas filha, mal terminou o verão e em maceió nem se percebe direito as estações, aqui só chove ou faz sol.
- vai começar em mim mãe, o outono começa sempre dentro da gente, quando as lembranças se soltam no chão da cabeça.
- filha, você precisa descançar.
- mãe, a senhora precisa acordar.

Se há uma coisa que amadurecia na coisinha, era a capacidade de não deixar nada sem resposta, pessoas, fatos, ela odiava ficar muda diante dos fatos, odiava ficar muda diante das pessoas. Ganhou uma nova mania nos últimos tempos, passou a falar em voz baixa consigo mesma, na primeira pessoa, o tempo inteiro a questionar-se. Aproveitou o dia ameno e foi caminhar, com as costas abertas, aparadas pela mãe com tesoura fina.

De volta a praça foi dar comida aos pombos. Sentada no banco pensou no abandono, no menosprezo, na curiosidade de quem passava por ela, olhava as patas dos bichos, vermelhas, com cascas, doentes. Não era muito diferente deles, bem como não o era de todas as coisas vivas, muito embora compartilha-se seu ser com um parasita vegetal, não via diferença entre estes os outros que normalmente parasitam um ser humano. As pessoas alimentam as coisas dentro delas, que por sua vez vão alimentar a terra, que por sua vez alimentará outras coisas no ventre, que por sua vez irão se hospedar nas pessoas e assim por diante, não era isso a vida Ana Clara? a gente vive alimentado parasitas internos e externos, dando nossa cor, nossa seiva eleborada aos vermes do corpo Ana Clara, viver não é isso?

- não, não é.

E odiou a si mesma por interrogar-se em terceira pessoa. Porém o ódio não teve tempo de terminar, pois um pombo pousou ao lado, seguido por outro e mais outro, três aves ao redor dela, como se não fosse um humano ali, próximos demais os bichos, machos ou fêmeas? O mais corpulento era macho, certeza. A cena caberia num quadro, quem pintaria? Que nome levaria? A menina dos pombos ou os pombos da menina? Menina ou mulher? Mais bichos se aproximaram, logo havia oito, um deles subiu nas costas dela, a repulsa a fez estática, parada apenas sentiu a dor, a maior dor até agora. O animal meteu o bico nas costas da menina, uma, duas, três vezes, arrancou um talo largo e partiu. Outros vieram, sobre as costas um pequeno bando. Não gritou, apenas levantou-se, gemido escuro nos lábios.

1 De lírio(s):

Anonymous Anônimo ...

aaaaah... não mata a coisinha não... faz ela se renovar e virar gente d verdade. Como se fosse uma transformação natural provocada por outros seres da natureza. Matá-la seria recorrer ao final trágico tradicional e fácil. A história tá massa áté agora!

23 abril, 2006 20:17  

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