10.4.06

as costas da menina. parte 3

desde que o verde estourou a respiração da coisinha não era mais a mesma. Durante a noite respirava claro. ao dia a respiração entrava feito um veludo garganta abaixo, tinha tecido na traquéia. o pai havia ido. não mais a mesma a coisinha, sua pele ganhava tons claros, variantes da palidez. porém, havia dias em que acordava brilhante, sem resquício da noite mal dormida, da dor, dos cabelos caídos e renascidos de modo impressionante. a não mais menina, tampouco mulher, mudava conforme as estações. muito sol a queimava demais, e ela ia do vermelho ao marrom em um dia, os cabelos caídos e as unhas ressecadas a faziam procurar a sombra do quarto, três, quatro dias, uma semana sob a penumbra consumindo litros de água, sentia-se melhor. ao sair estava de cabelos brilhantes, cachos caídos sob os ombros, soltos na leveza do dia. o viço da pele a chamar a atenção dos que por ela passavam. nos últimos dois anos quase dobrou de tamanho, ouvia atentamente o médico:

- você cresceu em um ritmo duas vezes maior que o normal, mas nos últimos meses o crescimento estabilizou. parece estável. porém um fato intriga: a porcentagem de água no seu corpo é três vezes acima do esperado em um ser humano.
- eu sou de água doutor?
- todos somos, mas você é mais que os outros.

pelo menos em algo era mais que os outros. desejo escroto esse, ser mais que os outros. a voz alta interrompeu a aula:
- é uma necessidade necessariamente inútil.

d.e.s.e.j.o. s.u.j.o. d.e. t.e.r.r.a.

a frase foi dita bem devagar, mastigando as letras. os olhos de todos voltados para a manga comprida da blusa, de onde saiam folhas. correu para fora da sala, deixou o encosto da cadeira coberto de folhas secas. correu em outono pelo pátio, até encontrar a imagem que escapava da conversa com o médico: o vidro com o líquido branco.

- este é seu sangue ana clara.

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