8.4.06

as costas da menina: parte 1

no começo uma espinha, dessas com pus que nascem e estouram fácil, que enchem as costas e provocam um asco. se fosse no rosto dava pra espalhar ela no espelho quando estourasse. eca.
- mãe, espreme aqui.
- vem cá, deixa ver...
- ai!
- tá verde filha, verdinha, não quer estourar.

engraçado isso. espinha nas costas é molinha, espreme fácil, solta um pus espesso e sara. assim como saram pequenas feridas em costas de criança. mas havia algo estranho nas costas da coisinha. coisinha. o pai a chamava de coisinha. e era assim que se sentia: coisa entre coisas. o pai tinha muitas coisas, ela só mais uma, coisas para resolver, para pagar, para ver, para ajeitar, para pôr no lugar, para consertar, para depositar, para despedir, para despachar.
a coisinha vestiu a blusa e saiu para ver os pássaros. bem sentada na praça rayol, com migalhas na mão.
passava horas vendo os pombos na praça. passatempo besta. pombo não é lá grande coisa que se ver, mas o que ela queria mesmo saber era de onde vinham tantos pombos. alguém aí já viu um filhote de pombo? pelanco de pombo não existe. para ela os pombos já nasciam voando. deve ser louco nascer em pleno vôo. mamãe pomba põe o ovo e ele eclode no ar, assim como um pensamento. poft, pombinha de asas pretas, mesclada com branco, meneando a cabeça.
- ai. mãe! isso é espinha ou é verruga?
- é espinha minha filha.
- verde?
- vem cá, deixa ver de novo... é... hum... bem, é verde sim, mas é espinha.
- estoura então.
- não dá, tá verde.
- três dias e não amadurece isso?

agonia de quem quer tudo na hora. injustiça ser nas costas. essa bosta. melhor. espinha na cara dá vergonha. leu um artigo num site sobre aves. lá dizia que os pombos de cidade são nojentos, carregam doenças e comem tudo que não presta. bebem água de meio fio, têm as patas vermelhas e cheias de cascas. rato de asas. assim dizia o biólogo. ele devia entender de pombos, deve ter visto um pombo nascendo no ar. poft, pombinha branca de mãe preta, coisinha. as fezes dos pombos são corrosivas. em São Paulo estavam estragando a arquitetura. as fezes são ácidas, derretem concreto. e sabe como é ave né não? urina e fezes saem pelo mesmo buraco. veneno puro. a acidez dissolve a cabeça das estátuas e os prédios antigos. uma cidade da europa( tinha a impressão que na europa todo mundo era velho) já estava exterminando os pombos.

- cauterizar mãe?
- é filha, o doutor vai pôr um pouco de ácido no carocinho das suas costas, para dissolver ele.
- e dói?
- vai arder um pouco coisinha, mas depois passa.
- doutor! isso é merda de pombo? cagada corrosiva? o senhor já viu um pombo pelanquinho? aó aí aaaaaaaaaa!

três dias depois, espanto. tinha uma coisa nas costas da coisinha. cada vez mais verde, um caroço do tamanho da ponta do dedo mínimo dela, pequeno verde, consistência de musgo, nem mole nem duro, um gel interno, uma pontinha no fundo, sob a pele.

- vai ao dermatologista com o pai coisinha.
- o dermatologista entende de cagada de pombo pai?
- não, entende de pele.
- então vou não, não cura. tem que ser um dermatologista biólogo, um dermatobiólogo. que entenda de pele e cagada de pombo. um pombiólogodermatologista.

não incomodava, não ardia, apenas permanecia, a coisa nas costas da coisinha.

1 De lírio(s):

Blogger 5 ...

pombos me mordam! que coisinha bom, assim, essas letrinhas seguidas em paragrafos.

08 abril, 2006 22:17  

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