28.4.06

confissão da xícara ao bule de café.

minha face é iluminura, hipérbole patética não acontecida. pasmo sigo no pasto da solidão consentida, a esperar a fresta do tempo, a fenda do ventre que vai fecundar o caminho. meus olhos ressentidos recusam. pressinto o gesto antes dele ocupar o espaço e antecipo o aceno. patético poético paleativo sintético, o poeta é como flor mumificada, dormindo no entre folhas da agenda do ano passado. as palavras boiam na água do entendimento, quando tudo soa lamento e amar é sentir-se banhado em tormento. a pálida figura requer patente para olhar as coisas de frente, ledo engano dormente: de nada adianta tentar compreender, posto que a dor só é dor em quem sente.

ahhhh, a liberdade

Há a liberdade e hão perspectivas. Ângulos e ângulos, congruentes ou não!
É disperdício na minha mão, sim precipício no chão.
Há o corpo e há a mente. Realmente, hei de liberto.
Há de escolher e há de viver OU Hão de escolher e hão de viver.
Comparecer? Nada se sabe, além do que há.

Das escolhas e das possibilidades.
Liberto tu, libertino eu.
Dois pesos, duas 'liberdade'.
Nenhuma medida.

Ligeiro, rasteiro.
FORASTEIRO
invadiu invadindo o tempo, o espaço e o hão.

e eu aqui? não sei li-dar.
é clichê por clichê.
esquecer pra viver.

25.4.06

quebrando o ritmo da menina. Para Guadalupe!

acabou que aqui virou, mesmo, a casa do canário, sem trocadilhos binários ou coisa parecida. mas eu estou só preparando as asas. breve o ninho será apenas a lembrança.

essa é do tempo em que até sonho era em espanhol:

Composição: Horacio Guarany
Si se calla el cantor calla la vida porque la vida, la vida misma es todo un cantosi se calla el cantor, muere de espantola esperanza, la luz y la alegría.Si se calla el cantor se quedan soloslos humildes gorriones de los diarios,los obreros del puerto se persignanquién habrá de luchar por su salario.
HABLADO'Que ha de ser de la vida si el que cantano levanta su voz en las tribunaspor el que sufre,´por el que no hayninguna razón que lo condene a andar sin manta'Si se calla el cantor muere la rosade que sirve la rosa sin el cantodebe el canto ser luz sobre los camposiluminando siempre a los de abajo.Que no calle el cantor porque el silenciocobarde apaña la maldad que oprime,no saben los cantores de agachadasno callarán jamás de frente al crimén.
HABLADO'Que se levanten todas las banderascuando el cantor se plante con su gritoque mil guitarras desangren en la nocheuna inmortal canción al infinito'.Si se calla el cantor . . . calla la vida.


P.S. aí lupe! não falei que vc acabaria voltando? Sua chilena miserável, ainda sabe ler português?

no es el condor guadalupe, pero para lo mismo esta listo el canario.

yo no creo en brujerias, pero que las hay, las hay.

lc canário. passarinho de aquário.

As costas da menina: dor e demência antes do fim.

A palavra é enegrecer. tornar-se negro. tornaram-se negras as mãos da coisinha, após o encontro com as aves. as mãos negras contrastavam com as unhas amarelas, grossas, fundas. fincadas na carne dos dedos. ela rasgava as paredes do quarto com elas, dor contínua e latente, febre senil, corpo dormente. arrastava-se na escuridão a contorcer-se em dores, os grunhidos duravam horas, pairava espesso o som sobre a cama. prendia a respiração a coisinha, a esperar que a morte, esta fagulha, queimasse o corpo, que agora sofria com a ação de outro parasita, desta vez deixado pelos pombos. Pombos, pombos de patinhas rosadas, RATOS DE ASAS, ela pensava. Se o espírito santo veio mesmo em forma de pomba branca, era nojento ele. deve ter cagado nas cabeças de todos, continuou a pensar e mastigar pedaços de madeira. Do chão do quarto ela mordia a quina da cama, aos poucos perderia parte dos dentes, a língua grossa mal permitia que a boca fosse fechada.
pode ouvir a conversa da mãe com o médico:

"Criptococose, dona sara, é isso, creio eu: micose profunda, cujo agente etiológico, Criptococus neoformans, tem afinidade pelo sistema nervoso central. só não entendo o motivo das manchas, do inchaço e da cor preta, mas o agente infeccioso está correto "

A mancha negra corria o corpo em direção ao braço, subia para o ombro e tomava-lhe parte do rosto, permanecia no escuro, deitada no chão, a coçar a língua no lastro da cama. os cabelos da coisinha, castanhos, cresciam sem parar, na direção dos pés, oleosos, brilhantes. se havia uma fenda luminosa atravessando a janela do quarto ao nascer do dia, tocando o chão perto dos cabelos, ela amanhecia com eles direcionados para a luz, cobrindo o rosto e o corpo. a menina tinha os cabelos tocando os joelhos.
a mãe insistia para que ela bebesse e comesse, muito embora a coisinha fosse, a esta altura, incapaz de mastigar. um canudo conduzia os alimentos, não suportava nada pastoso ou com qualquer resquício sólido. negava-se a vestir-se. as mãos, cada vez mais trêmulas, eram cravadas na parede, com a força de uma raiz que fura a pedra. estática, ela não mais saia do canto do quarto, na parte mais úmida, na junção entre a parede fria e úmida e o chão de madeira do quarto. comia cada vez menos, até que parou de comer. as mãos, não esqueça das mãos, ela pensava. e continuava a cavar a parede com as unhas, até perdê-las. sangrou. um sangue branco, seiva. sangrou como jamais havia sangrado, as pontas dos dedos agora faziam o papel das unhas, a boca e o queixo cortados, as feridas brancas, a mancha negra abandonava o rosto e caminhava para as costas da coisinha, único lugar que permanecia imune ao sofrimento. mexia-se apenas em pequenos espamos. para o espanto da mãe, a menina gritava quando qualquer vulto se aproximava do quarto, não mais queria ser vista, pensava apenas em juntar-se à parede úmida.

o sofrimento durou até a chegada da chuva, a mudança de estação trouxe consigo a amenidade do clima, o prenúncio.

Ao acordar do pouco sono que tinha desde que a filha fechou-se no quarto, dona Sara notou o silêncio. Caminhou pelo corredor na ânsia de ver a filha melhor. Surpresa maior foi ver a porta entreaberta, um convite. entrou. a penumbra do quarto havia sido quebrada pela forte luz da manhã que entrava pela janela. sentada junto à parede, a coisinha parecia dormir, braços eestendidos, não havia manchas, cresciam unhas onde há pouco só a carne morta estava. não usava roupas a coisinha, seu rosto era claro, a pele parecia melhor, dormia, com os cabelos a cobrir o tronco, caiam pelos ombros. a mãe aproximou-se da filha, queria abraça-la, puxou a menina para si, mas o corpo nã atendeu, pôde ouvir a respiração da filha, ,,,,,,,,,,,,. ,,,,,,,,,. ,,,,,,,,,,. ,,,,,,,,. funda, calma... a expirar cheiro de chuva, como terra recém molhada pelas primeiras águas do ano. que tipo de sono era este? a menina parecia tranquila, poucas cictrizes, nem parecia o mesmo ser que grunhia na noite anterior. sim, era ana clara ali, encostada na parede, o ventre a mexer, cima, baixo, cima, baixo, lentamente. a mãe ficou algum tempo ouvindo a respiração da filha, até que novamente tentou puxá-la para si. não adiantava, finalmente percebeu que ela estava grudada na parede úmida, presa por uma pequena sebe que havia se formado nas costas.


- de que tipo de planta a senhora está falando dona clara?
- quantos anos faz que o senhor trabalha com plantas?
- dez.
- é botânico?
- biólogo, especialista em botânica. mexo com plantas, cultivo exemplares raros e projeto jardins para desenvolvimento de espécies. mas de que tipo de planta estamos falando afinal?
- nem rosa, nem orquídea rara, dessas que o senhor conhece, nenhuma. do tipo que nasce no ventre materno. deste tipo aqui: olá ana clara, cumprimente o biólogo.
- bom dia senhor biólogo, como é mesmo seu nome?

22.4.06

as costas da menina. quase fim.

Agora tinha certeza. E certezas são coisas que ela acreditava não necessitar ter, achava mesmo que ter certeza de alguma coisa tornava ela morta, fincada no chão das coisas incertas. Crescia como uma planta, tinha vivido como uma planta e havia se tonado uma planta. Levou para casa o vidrinho com o líquido branco que o médico mostrou, virou caso de estudo para a medicina, alegria de médico residente, chegava no hospital e era feita uma fila de estagiários e enfermeiras para ver a menina planta. Um deles, professor e doutor, disse com ar sereno no rosto e o distanciamento que só os piores médicos podem ter:" se a paciente Ana Clara Peixoto tivesse nascido no século dezenove, seria atração de circo" todos riram, inclusive a coisinha, que levemente, mas muito levemente mesmo, como um trem caindo no vácuo, falou: "seríamos todos doutor, a começar pelo senhor e seus alunos aí." O ar da sala mudou de cor, suavemente.

Cortar a coisa nas costas doia, mas o que doia mais era a sensibilidade ao sol, o calor em excesso da cidade a fazia sentir um torpor contínuo, com as costas de canto a canto ardendo. Se tomava banho percebia nitidamente o crescimento, novas folhas, novos ramos, a mesma pessoa magra e branca, de costas largas.
As costas de Ana Clara tinham raízes. A radiografia mostrava que a coisinha estava com a coisa fincada na coluna vertebral, brotava de dentro da medula espinhal. Certa feita, fechada no quarto, cortou-se levemente no antebraço, visco branco saltou aos olhos, seiva que tornava-se quase transparente diante da luz. Tinha a impressão que a pele descamava, confirmou ao puxar com a unha uma parte da pele do ombro direito:

- mãe, vai começar o outono.
- mas filha, mal terminou o verão e em maceió nem se percebe direito as estações, aqui só chove ou faz sol.
- vai começar em mim mãe, o outono começa sempre dentro da gente, quando as lembranças se soltam no chão da cabeça.
- filha, você precisa descançar.
- mãe, a senhora precisa acordar.

Se há uma coisa que amadurecia na coisinha, era a capacidade de não deixar nada sem resposta, pessoas, fatos, ela odiava ficar muda diante dos fatos, odiava ficar muda diante das pessoas. Ganhou uma nova mania nos últimos tempos, passou a falar em voz baixa consigo mesma, na primeira pessoa, o tempo inteiro a questionar-se. Aproveitou o dia ameno e foi caminhar, com as costas abertas, aparadas pela mãe com tesoura fina.

De volta a praça foi dar comida aos pombos. Sentada no banco pensou no abandono, no menosprezo, na curiosidade de quem passava por ela, olhava as patas dos bichos, vermelhas, com cascas, doentes. Não era muito diferente deles, bem como não o era de todas as coisas vivas, muito embora compartilha-se seu ser com um parasita vegetal, não via diferença entre estes os outros que normalmente parasitam um ser humano. As pessoas alimentam as coisas dentro delas, que por sua vez vão alimentar a terra, que por sua vez alimentará outras coisas no ventre, que por sua vez irão se hospedar nas pessoas e assim por diante, não era isso a vida Ana Clara? a gente vive alimentado parasitas internos e externos, dando nossa cor, nossa seiva eleborada aos vermes do corpo Ana Clara, viver não é isso?

- não, não é.

E odiou a si mesma por interrogar-se em terceira pessoa. Porém o ódio não teve tempo de terminar, pois um pombo pousou ao lado, seguido por outro e mais outro, três aves ao redor dela, como se não fosse um humano ali, próximos demais os bichos, machos ou fêmeas? O mais corpulento era macho, certeza. A cena caberia num quadro, quem pintaria? Que nome levaria? A menina dos pombos ou os pombos da menina? Menina ou mulher? Mais bichos se aproximaram, logo havia oito, um deles subiu nas costas dela, a repulsa a fez estática, parada apenas sentiu a dor, a maior dor até agora. O animal meteu o bico nas costas da menina, uma, duas, três vezes, arrancou um talo largo e partiu. Outros vieram, sobre as costas um pequeno bando. Não gritou, apenas levantou-se, gemido escuro nos lábios.

18.4.06

a quem possa interessar:

a menina resiste saca? fica zanzando na minha cabeça... o problema é: o que fazer com ela?

a. deixo viver, sem a coisa nas costas.
b. mato ela, com coisa e tudo.
c. ela viver, a coisa tb.
d. ela morre, a coisa vive.
e. não importa o fim, mas sim os meios para.

fala aí...

pois é

VIVENDO E ACONTECENDO!

17.4.06

one day

for bizarre day...

i dont gosto.

14.4.06

poema de uma só face.


permita-me a repetição:

"belo dia em que você acorda
e vê que sequestraram a sua sombra.
mas o pior, o pior mesmo é saber
que o responsável por tal delito
simplesmente acabou de acordar"

10.4.06

há palavras entre os dedos. abra as mãos.



Uma figura vegetal imprevisível.

LC Canário.

as costas da menina. parte 3

desde que o verde estourou a respiração da coisinha não era mais a mesma. Durante a noite respirava claro. ao dia a respiração entrava feito um veludo garganta abaixo, tinha tecido na traquéia. o pai havia ido. não mais a mesma a coisinha, sua pele ganhava tons claros, variantes da palidez. porém, havia dias em que acordava brilhante, sem resquício da noite mal dormida, da dor, dos cabelos caídos e renascidos de modo impressionante. a não mais menina, tampouco mulher, mudava conforme as estações. muito sol a queimava demais, e ela ia do vermelho ao marrom em um dia, os cabelos caídos e as unhas ressecadas a faziam procurar a sombra do quarto, três, quatro dias, uma semana sob a penumbra consumindo litros de água, sentia-se melhor. ao sair estava de cabelos brilhantes, cachos caídos sob os ombros, soltos na leveza do dia. o viço da pele a chamar a atenção dos que por ela passavam. nos últimos dois anos quase dobrou de tamanho, ouvia atentamente o médico:

- você cresceu em um ritmo duas vezes maior que o normal, mas nos últimos meses o crescimento estabilizou. parece estável. porém um fato intriga: a porcentagem de água no seu corpo é três vezes acima do esperado em um ser humano.
- eu sou de água doutor?
- todos somos, mas você é mais que os outros.

pelo menos em algo era mais que os outros. desejo escroto esse, ser mais que os outros. a voz alta interrompeu a aula:
- é uma necessidade necessariamente inútil.

d.e.s.e.j.o. s.u.j.o. d.e. t.e.r.r.a.

a frase foi dita bem devagar, mastigando as letras. os olhos de todos voltados para a manga comprida da blusa, de onde saiam folhas. correu para fora da sala, deixou o encosto da cadeira coberto de folhas secas. correu em outono pelo pátio, até encontrar a imagem que escapava da conversa com o médico: o vidro com o líquido branco.

- este é seu sangue ana clara.

9.4.06

Parte 2 do conto abaixo.

- tem um tipo de planta sabe, que escorrega pelo muro e cobre ele todinho de pequenas folhas. que parece brotar de dentro do cimento e chupar o concreto, indo passar a língua de caule nos tijolos. ela pega e cresce com raminhos. e aí a gente pensa de onde porra vem aquela peste de plantinha trepadeira que parece insisitir em quebrar a lógica das coisas. ela vem do chão, do pé do muro, cresce sugando as frestas, da água que escorre com a chuva e deita no chão, na junção entre o muro e a calçada.


causava espanto na professora mostrando como crescia o verde das costas. estranha coisinha, cada vez mais isolada dos outros. aprendeu a ir ao médico toda semana, cada pedaço do corpo medido, examinado. expert em pele e sangue, a coisinha já usava os termos técnicos. a epiderme, a derme, os vasos sanguíneos que alimentavam o caroço, que não era mais caroço porque rompeu, o talo escuro que rompeu botou uma folha nas costas dela. crescia cobrindo espaços, não mais ganhava volume, não sangrava, não doia, só crescia. verde que te quero verde cada vez mais verde, a coisa das costas da coisinha.

- pai, me leva num biólogo.
- biólogo não é médico coisinha.
- mas entende de planta.

andava de blusa de alça. espanto. coisinha da coisa verde carregava uma planta nas costas. virou lenda na escola, atração do circo das crianças que ridicularizam as outras no intervalo, mostrava a todos com o sorriso digno do centro das atenções. vergonha não tinha, tinha cor, já que sempre foi pálida, jamais vista ou notada. estava até melhor a coisinha, o pai aparecia quase todos os dias, perguntava se ela estava bem, elogiava.

os outros moleques ao redor:

-dói?
-não.
-nasceu quando?
- vai fazer dois anos.
- tem que operar?
- não, tem que podar. senão cresce demais.
- eita.
- e o que é isso, esse talinho?
- é raiz adaptada, tem que cortar também. ela cresce pregando esse talinho em partes suadas das costas.

- mãe, tô virando árvore.

8.4.06

as costas da menina: parte 1

no começo uma espinha, dessas com pus que nascem e estouram fácil, que enchem as costas e provocam um asco. se fosse no rosto dava pra espalhar ela no espelho quando estourasse. eca.
- mãe, espreme aqui.
- vem cá, deixa ver...
- ai!
- tá verde filha, verdinha, não quer estourar.

engraçado isso. espinha nas costas é molinha, espreme fácil, solta um pus espesso e sara. assim como saram pequenas feridas em costas de criança. mas havia algo estranho nas costas da coisinha. coisinha. o pai a chamava de coisinha. e era assim que se sentia: coisa entre coisas. o pai tinha muitas coisas, ela só mais uma, coisas para resolver, para pagar, para ver, para ajeitar, para pôr no lugar, para consertar, para depositar, para despedir, para despachar.
a coisinha vestiu a blusa e saiu para ver os pássaros. bem sentada na praça rayol, com migalhas na mão.
passava horas vendo os pombos na praça. passatempo besta. pombo não é lá grande coisa que se ver, mas o que ela queria mesmo saber era de onde vinham tantos pombos. alguém aí já viu um filhote de pombo? pelanco de pombo não existe. para ela os pombos já nasciam voando. deve ser louco nascer em pleno vôo. mamãe pomba põe o ovo e ele eclode no ar, assim como um pensamento. poft, pombinha de asas pretas, mesclada com branco, meneando a cabeça.
- ai. mãe! isso é espinha ou é verruga?
- é espinha minha filha.
- verde?
- vem cá, deixa ver de novo... é... hum... bem, é verde sim, mas é espinha.
- estoura então.
- não dá, tá verde.
- três dias e não amadurece isso?

agonia de quem quer tudo na hora. injustiça ser nas costas. essa bosta. melhor. espinha na cara dá vergonha. leu um artigo num site sobre aves. lá dizia que os pombos de cidade são nojentos, carregam doenças e comem tudo que não presta. bebem água de meio fio, têm as patas vermelhas e cheias de cascas. rato de asas. assim dizia o biólogo. ele devia entender de pombos, deve ter visto um pombo nascendo no ar. poft, pombinha branca de mãe preta, coisinha. as fezes dos pombos são corrosivas. em São Paulo estavam estragando a arquitetura. as fezes são ácidas, derretem concreto. e sabe como é ave né não? urina e fezes saem pelo mesmo buraco. veneno puro. a acidez dissolve a cabeça das estátuas e os prédios antigos. uma cidade da europa( tinha a impressão que na europa todo mundo era velho) já estava exterminando os pombos.

- cauterizar mãe?
- é filha, o doutor vai pôr um pouco de ácido no carocinho das suas costas, para dissolver ele.
- e dói?
- vai arder um pouco coisinha, mas depois passa.
- doutor! isso é merda de pombo? cagada corrosiva? o senhor já viu um pombo pelanquinho? aó aí aaaaaaaaaa!

três dias depois, espanto. tinha uma coisa nas costas da coisinha. cada vez mais verde, um caroço do tamanho da ponta do dedo mínimo dela, pequeno verde, consistência de musgo, nem mole nem duro, um gel interno, uma pontinha no fundo, sob a pele.

- vai ao dermatologista com o pai coisinha.
- o dermatologista entende de cagada de pombo pai?
- não, entende de pele.
- então vou não, não cura. tem que ser um dermatologista biólogo, um dermatobiólogo. que entenda de pele e cagada de pombo. um pombiólogodermatologista.

não incomodava, não ardia, apenas permanecia, a coisa nas costas da coisinha.

3.4.06

diafaneidade

- tão bom estar contigo... você existe?
- não, eu vivo.