13.3.06

rascunho. exercício.

As coisas deste lugar são estranhas. Elas falam quando saio, ganham ânimo e contam meus segredos. A estante ouve os livros, que por sua vez reclamam do cheiro das minhas mãos, alguns excluídos, há muito não lidos, sentem minha ausência, mergulhados na imensidão de estar fechados. Milhares de palavras fechadas. É incrível o que a ausência de luz faz com os livros, convém abri-los vez por outra, ninguém merece a condenação de viver fechado em si mesmo.

Certamente quem mais fala são as cadeiras, o lugar onde o homem descansa é a parte que completa o corpo, o alívio mudo. A cama é muda, pouco sabe exceto em sonho. A cama cala. Este quarto é áspero demais, o sol não o deixa. É réptil este quarto. Há um sol gigantesco em meu quarto, cujo calor rasga o ar, corta os cílios, um sol que exala seu cheiro claro durante a noite.

Há uma árvore que sofregamente teima em ser paisagem na janela, consumida por um parasita gigante. A mangueira está coberta por um parasita que a devora, lentamente. À noite, na penumbra, a mangueira e o parasita mais parecem um monstro cuja sombra do braço alcança minha janela, espreita o que respiro e diz: cale-se homem, tua boca não vai mudar nada.

A estante é maquiada de amarelo, um ovo de madeira. Nos braços dela deixei os livros, vez por outra os abro, com piedade e respeito, deixo que as palavras respirem, ganhem luz e fôlego. Na madrugada posso vê-las aos saltos, correndo entre as prateleiras, no chão.

2 De lírio(s):

Blogger DIMETILBENZENO ...

gostei da descrição desse quarto com vista pra árvore. e quem disser o contrário merece uma licha, até pq todos esses objetos de fato ganham vida mesmo.
Agora atacando de professora: muito bom meu filho! os parágrafos balanceados, gostei de ver.
hehehehe
escreva sempre!!

13 março, 2006 19:19  
Blogger 5 ...

mestre é sempre mestre.

15 março, 2006 16:04  

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