23.3.06

Da necessidade inerente

É chegada a hora de ausentar-se dos outros, desaparecer para reaparecer em si mesmo. Não mais proclamar a palavra, para que ela em mim se proclame. os versos soltos no ar ão de encontrar repouso. Somente assim é possível buscar a palavra original, ou qualquer coisa que apeteça, a forma inaudita, a consciência de não mais estar para em seguida emergir com algo a contar, a expor.
É chegada a hora de entregar-se ao torpor, fugir da imagem que a mim foi pregada, como em louvor ao poeta que não faz nada, a não ser figurar entre amigos. Chegou a hora de costurar palavras além do umbigo-abrigo.
Não se trata, pois, de fuga ou coisa que o valha, mas de solidão consentida, escolha mesmo, destas que se fazem vivas quando o homem sente-se morto.
Quero que esta larva de língua, este vício de dizer, seja sufocado aos poucos, com a perna no pescoço.

16.3.06

Da distância dos amigos.

Aos amigos distantes, a certeza de que em cada gesto meu há um punhado de saudade. Conservo sua imagens, seus sorrisos, seus abraços. Meus amigos, quando longe, dormem no imaginário afeto.
E é nesta lembrança que o homem se faz maior, imune à estupidez que cerca o mundo, na morada do respeito aos semelhantes. Aos amigos errantes, a convicção de que as pedras, mesmo paradas nos montes, rolarão com a chuva, serão partidas pelo tempo e um dia se encontrarão, no vértice das coisas não ditas.
Estão comigo os homens exploradores das sombras que cercavam meu peito. Eles arrancaram a luz, entre copos, porções de amendoim e música, eles deram vida ao que padecia sob a poeira dos velhos discos, eles ouviram delírios, consolaram a dor, aplacaram a angustia, relevaram os tropeços de alguém desacostumado a medir o que dizia. Nossa filosofia de calçada iluminou o bairro portuário, jaraguá de tristes figuras, praça rayol fortaleza bendita. Somos os loucos da Rayol Square e qualquer acorde dissonante, de viola furada ou pífano afônico, nos trará de volta ao que na verdade nunca deixamos.
a todos os que apareciam na janela quando tudo parecia pequeno demais.

13.3.06

rascunho. exercício.

As coisas deste lugar são estranhas. Elas falam quando saio, ganham ânimo e contam meus segredos. A estante ouve os livros, que por sua vez reclamam do cheiro das minhas mãos, alguns excluídos, há muito não lidos, sentem minha ausência, mergulhados na imensidão de estar fechados. Milhares de palavras fechadas. É incrível o que a ausência de luz faz com os livros, convém abri-los vez por outra, ninguém merece a condenação de viver fechado em si mesmo.

Certamente quem mais fala são as cadeiras, o lugar onde o homem descansa é a parte que completa o corpo, o alívio mudo. A cama é muda, pouco sabe exceto em sonho. A cama cala. Este quarto é áspero demais, o sol não o deixa. É réptil este quarto. Há um sol gigantesco em meu quarto, cujo calor rasga o ar, corta os cílios, um sol que exala seu cheiro claro durante a noite.

Há uma árvore que sofregamente teima em ser paisagem na janela, consumida por um parasita gigante. A mangueira está coberta por um parasita que a devora, lentamente. À noite, na penumbra, a mangueira e o parasita mais parecem um monstro cuja sombra do braço alcança minha janela, espreita o que respiro e diz: cale-se homem, tua boca não vai mudar nada.

A estante é maquiada de amarelo, um ovo de madeira. Nos braços dela deixei os livros, vez por outra os abro, com piedade e respeito, deixo que as palavras respirem, ganhem luz e fôlego. Na madrugada posso vê-las aos saltos, correndo entre as prateleiras, no chão.

12.3.06

Do Personagem Autor
(Soneto do Soneto Inverso)

Há algum tempo
Um autor veio e me disse
Que devo ter cuidado para não gastar o já usado

Agradecido
Quis torná-lo um personagem
Pois que me veio, a base de fórmulas, mentefechado

Incomodado fabriquei uma teoria
De que nem tudo que não se move é quadrado
Porém meu medo continuou subjugado
A descrever tal real fotografia

Então partir ao velho manto emaranhado
E finalmente debrucei sabedoria
Melhor repetir o que não se conhecia
Do que repintar e repintar o próprio quadro

pós escrito

eu vou usar teu nome para cobrir meus pés inchados,
usar teu nome para pintar as paredes que não há
usar teu nome como brinco e colar
usar teu nome em tudo que existe
em cada verbo
em cada sílaba sílfide cega
que minha boca ousar pronunciar.

vou usar teu nome para regar as urtigas do jardim da cabeça
para afagar os vermes
que habitam fielmente meu estômago,
vou usar teu nome ao arrotar a sobremesa
e cada verso meu será
pra te dizer
que eu vou usar teu nome
para sobre ele solenemente defecar,
por toda a minha vida,
saravah.



Luiz Carlos Canário
Direto da coronária anfíbia.

11.3.06

transtorno obsessivo caótico

eu to
to nervoso
tremoolooo
eu to com medo
to neurótico
caótico
eu to que to.
eu to guerreiro.

10.3.06

O ASSALTO DA RÃZINHA

- se eu fosse te contar, vc não acreditaria, da quantidade de sapos que engulo, a minha vida saparia. hj mesmo, uma rãzinha, dessas incompetentes que se julgam melhores porque são, irmão da prima do amigo do irmão, chegou-se e bocejou um veneninho, coisa fina, que escorreu quando ela fechou a porta.
- tu?
- eu apunhetei de vontade de.
- sim, mas e aí?
- a cabeça pendeu, o sangue ferveu, quase perco a razão, nessa rima besta fudeu, bestifiquei. ainda recebi uma teoria de presente: A EDADISSECEN ED RILOGNE SOPAS SOD SETNERAP OD OÃRTAP.


luiz carlos canário,
mais vale o mito morto que o idiota vivo.

e como diria o duda da baixa funda:
melhor ser um surfista maravilhoso que um intelectual incompetente.

para petite e para o gordo.

4.3.06

das incertezas

escolho o caminho ou faço o caminho?

mas o caminho não é a estrada. são obras nossas ou não?
penso no deserto, nas estepes.

é o percurso. esse abismo escuro.
mas que abismo? nenhum abismo, está somente escuro.
pare de inventar, o abismo não existe!
abismo tu pensa, tu não vê. tu cria, não via.

calmo e com o coração.
como água, é preciso seguir. siga. hábito, meu caro.
impreciso? continuar é preciso.

como dor no cizo, sem grades, sem muros. apenas dor.
incisivo, é a pretensão.

pare. agora.
deseje pouco.
calmo e com o coração.