8.10.05

Referendo II

Há fatos e fatos sobre o tal referendo. A começar por ele mesmo, o descaso do governo para tratar do assunto largando o pepino na mão de um povo despreparado para tal argumentação. Ainda por cima, com pergunta capciosa de tal forma a gerar confusão e dúvida.

O próprio Thomaz Bastos admitiu ontem que é óbvio que o referendo não é para desarmar bandido, mas para reduzir o número de mortes e crimes acidentes, ou seja, os casos futeis. Ele lembrou também que a campanha do desarmamento já recolheu 500mil armas, sendo que a meta era 80 mil. Se a campanha continuasse, através de propagandas que esclarecessem sobre a falta de segurança que é ter arma em casa, o recolhimento continuaria aumentando, as pessoas continuariam entregando suas armas. Com o SIM ganhando, vai acontecer o contrário, vai inibir todo o bom resultado da política da campanha. Sendo obrigado (e de certa forma humilhado) o cidadão por reflexo da imposição não vai entregá-la sua arma de forma alguma. Uma pena, porque os bons resultados da campanha não param de aparecer. Internação por tiro acidental, de 2003 para 2004, caiu 13%, divulgou o Estadão uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde. De 2002 para 2003, houve aumento de 10%. A campanha do desarmamento é excelente. Quase a totalidade da população concorda com ela – até mesmo todos que vão votar pelo “não”. É uma pena que o referendo vai acabar com todos os bons frutos gerados pela ótima iniciativa da campanha do desarmamento.

Aqui está o projeto de lei, que será implantado acaso o SIM vença em maioria -> http://www.soleis.adv.br/armasestatuto.htm
Um exemplo prático: O cidadão tem uma arma em casa. Um assaltante entra na casa, a pessoa atira nele, mas não mata. Segundo a lei, se o SIM ganhar, essa pessoa tem que ser presa imediatamente, sem direito a pagar fiança. O assaltante terá o direito de pagar fiança e pegará uma pena menor do que essa pessoa, em regime semi-aberto.
Concordar com isso, é votar SIM. A população em maioria não leu e não lerá o estatuto. Diga-se de passagem por demais confuso e mal redigido, mesmo que lessem, 98% da população brasileira é incapaz de entender as 30 páginas do estatuto. Portanto, o referendo não tem o menor sentido.

Segundo o estatuto, o que será proibido é a comercialização e o porte de arma (trânsito com a arma em locais públicos). A arma, que já foi comprada antes do referendo e se registrada, poderá ficar no domicílio da pessoa responsável por ela e nesses casos a legítima defesa continuará sendo válida.
Supondo, ter arma em propriedade privada, não em lugar público, então se considera porte. Continuará podendo e a legítima defesa continua valendo. Mas as balas acabam. O cidadão vai continuar podendo ter aquela arma em casa mas não vai poder comprar munição. Muito confuso. O encarecido Sr. Renan Calheiros esses dias em alguns debates televisivos disse que vai ser preciso regulamentar o estatuto depois do referendo, segundo ele "há pontos não muito claros". Chegou a citar o exemplo acima, a pessoa que já tinha arma em casa e que, como está agora, se passar o SIM, não vai mais poder comprar munição. Eles vão mudar a lei de novo pra que essas pessoas possam comprar. Ou seja, vai ter comércio. Isso, a coisa mais sem sentido do universo.

Guilherme Fiuza, do no mínimo, em seu texto consegue tecer alguns comentários bastantes pertinentes em relação ao embate: "O debate está colocado da forma superficial e fajuta de sempre. Quem vota “sim” é contra as armas. Quem vota “não” é a favor das armas. E aí entra a outra lei da raça humana que não falha: quanto mais superficial é o entendedor, mais intolerante ele se revela; e quanto mais intolerante é o indivíduo, mais superficial revela-se o seu entendimento das coisas." Ainda: "A desonestidade da campanha do plebiscito é fazer crer que o voto “não” é necessariamente contra o desarmamento, ou a favor do “direito de cada um defender-se como quiser” etc." "De saída, uma rápida observação: é permitida a venda de fuzis americanos AR-15 à população civil brasileira? Evidentemente que não. Por que, então, o Rio de Janeiro está coalhado de fuzis AR-15, nas mãos de qualquer um que puder pagar por eles? Porque essas armas existem, foram inventadas um dia pela mente humana, são fabricadas regularmente e os fabricantes fecham os olhos, fazem o sinal da cruz, pedem desculpas a Papai do Céu e entregam-nas aos contrabandistas."

Fato, não vivemos num mundo perfeito e encantado, como pensam os defensores do SIM, se atendo à suposição que a proibição da venda de armas irá acabar com o desejo de comprá-las. Portanto, em opinião, a proibição não seria o melhor dos caminhos. A despersuasão esclarecendo a população sim. Proibir não extinguiu o tráfico de drogas, probir também não extinguiu o comércio ilegal e o consumo de alcóol durante os anos da lei seca nos Estados Unidos.

Coloquemos mais dados na panela.
A Escócia tem uma cultura centenária de violência e bebedeira. Mesmo sem armas, é o país mais violento do mundo desenvolvido, de acordo com a ONU. No Japão as armas também são proibidas, mas a cultura do país e o caráter nacional reforçam obediência às leis e comportamento digno. Logo, a criminalidade é muito baixa. Vale a mesma coisa para a Suíça, por exemplo. Todo mundo tem armas, até porque os cidadãos recebem RIFLES do governo. Níveis de violência por lá? Pífios. Isso não faz parte da cultura nacional. Agora pensem na cultura brasileira e no caráter nacional. É isso que faz a diferença. Quem mata não é a arma, é o sujeito que a empunha. "Brasileiro cordial" é o mito mais grotesco da nossa história. Nosso povo - DE QUALQUER REGIÃO - se caracteriza pela truculência, desrespeito ao próximo, descaso pela lei e tendência violenta.

Este que vos escreve não é a favor do armamento e da existência das armas e sim a favor de um debate mais claro e sério. Acredito que o caminho que o governo decidiu tomar não é, nem será em momento algum a solução.
O problema não são as armas, é a CULTURA DO PAÍS e o CARÁTER NACIONAL. Parece que ninguém percebe isso. Os esclarecimento e educação é a única solução. Além disso, eu não consigo acreditar que a maioria das pessoas que discutem sobre o assunto nem se quer leram o Estatuto.

Dia 23 de outubro pense bem, pois eu, já decidi pelo 3 botão, o NULO.

OBS: eu gostaria muito de entender uma coisa, sei que a ABRIL (vide capa da Veja semana passada) e algumas outras grandes empresas da mídia já se mostraram a favor do NÃO, fato que me faz entender como a indústria bélica patrocinando nos bastidores. Pois bem, o que não entendo é a GLOBO a favor do desarmamento! O que ela ganharia com isso?

2 De lírio(s):

Anonymous Anônimo ...

goo-zeei.

19 outubro, 2005 14:42  
Blogger cronópio ...

Saudade de ti, Thi!

31 outubro, 2005 21:00  

Postar um comentário (Comentar)

<< Início