23.5.05

Luís Fernando Veríssimo...

Lembro-me como se fosse há oito bilhões de anos. Eu era uma célula
recém-chegada do fundo do miasma e ainda deslumbrado com a vida agitada da
superfície, e você era de lá, um ser superficial, vivida, viciada em amônia, linda,
linda. Nós dois queríamos e não sabíamos o quê. Namoramos um milhão de
anos sem saber o que fazer, aquela ânsia. Deve haver mais do que isto, amar
não deve ser só roçar as membranas. Você dizia "Eu deixo, eu deixo", e eu dizia
"O quê? O quê?", até que um dia. Um dia minhas enzimas tocaram as suas e
você gemeu, meu amor, "Assim, assim!". E você sugou meu aminoácido, meu
amor. Assim, assim. E de repente éramos uma só célula. Dois núcleos numa só
membrana até que a morte nos separasse. Tínhamos inventado o sexo e vimos
que era bom. E de repente todos à nossa volta estavam nos imitando, nunca
uma coisa pegou tanto. Crescemos, multiplicamo-nos e o mar borbulhava. O
desejo era fogo e lava e o nosso amor transbordava. Aquela ânsia. Mais, mais,
assim, assim. Você não se contentava em ser célula. Uma zona erógena era
pouco. Queria fazer tudo, tudo. Virou
ameba. Depois peixe e depois réptil, meu amor, e eu atrás. Crocodilo, elefante,
borboleta, centopéia, sapo e de repente, diante dos meus olhos, mulher. Assim,
assim! Deus é luxúria, Deus é a ânsia. Depois de bilhões de anos Ele acertara a
fórmula. "É isso!", gritei. "Não mexe em mais nada!"
— Quem sabe mais um seio?
— Não! Dois está perfeito.
— Quem sabe o sexo na cabeça?
— Não! Longe da cabeça. Quanto mais longe melhor! Linda, linda. Mas
algo estava errado. Não foi como antes.
— Foi bom?
— Foi.
— Qual é o problema?
— Não tem problema nenhum.
— Eu sinto que você está diferente.
— Bobagem sua. Só um pouco de dor de cabeça.
— No caldo primordial você não era assim.
— A gente muda, né? Nós não somos mais amebas.
E vimos que era complicado. Nunca reparáramos na nossa nudez e de
repente não se falava em outra coisa. Você cobriu seu corpo com folhas e eu
construí várias civilizações para esconder o meu. "Eu deixo, eu deixo — mas não
aqui." Não agora. Não na frente das crianças. Não numa segunda-feira! Só
depois de casar. E o meu presente? Depois você não me respeita mais. Você vai
contar para os outros. Eu não sou dessas. Só se você usar um quepe da
Gestapo. Você não me quer, você quer é reafirmar sua necessidade neurótica de
dominação machista, e ainda por cima usando as minhas ligas pretas. O quê?
Não faz nem três anos que mamãe morreu! Está bem, mas sem o chicote. Eu
disse que não queria o sexo na cabeça, Senhor!
— Nós somos como frutas, minha flor.
— Vem com essa...
— A fruta, entende? Não é o objetivo da árvore. Uma laranjeira não é
uma árvore que dá laranjas. Uma laranjeira é uma árvore que só existe para
produzir outras árvores iguais a ela. Ela é apenas um veículo da sua própria
semente, como nós somos a embalagem da vida. Entende? A fruta é um
estratagema da árvore para proteger a semente. A fruta é uma etapa, não é o
fim. Eu te amo, eu te amo. A própria fruta, se soubesse a importância que nós
lhe damos, enrubesceria como uma maçã na sua modéstia. Deixa eu só
desengatar o sutiã. A fruta não é nada. O importante é a semente. E a ânsia, é o
ácido, é o que nos traz de pé neste sofá. Digo, nesta vida. Deixa, deixa. A flor,
minha fruta, é um truque da planta para atrair a abelha. A própria planta é um
artifício da semente para se recriar. A própria semente é apenas a representação
externa daquilo que me trouxe à tona, lembra? A semente da semente, chega
pra cá um pouquinho. Linda, linda. Pense em mim como uma laranja. Eu só
existo para cumprir o destino da semente da semente da minha semente. Eu
estou apenas cumprindo ordens. Você não está me negando. Você está
negando os desígnios do Universo. Deixa.
— Está bem. Mas só tem uma coisa.
— O quê?
— Eu não estou tomando pílula.
— Então nada feito.
Mais, mais. Um dia chegaríamos a uma zona erógena além do Sol. Como
o pólen, meu amor, no espaço. Roçaríamos nossas membranas de fibra de
vidro, capacete a capacete, e nossos tubos de oxigênio se enroscariam e
veríamos que era difícil. Eu manipularia a sua bateria seca e você gemeria como
um besouro eletrônico. Asssssiiiim. Asssssiiiiim.
Um dia estaríamos velhos. Sexo, só na cabeça. As abelhas andariam a pé, nada
se recriaria, as frutas secariam. Eu afundaria na memória, de volta às origens do
mundo. (O mar tem um deserto no fundo.) Uma casca morta de semente, por
nada, por nada. Mas foi bom, não foi?

2 De lírio(s):

Anonymous Hadassa ...

Hmmm que inspirador!!! gostaria de ver vc recitando isso! Assiiiiiiimmmmmm asssiiiiiiiiiiiimmmmm!!! bjuz

29 maio, 2005 17:41  
Blogger mabem ...

:$

29 maio, 2005 23:23  

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