10.1.05

Meu Primeiro Enterro

Não lembro bem como cheguei lá, nervosismo eu acho. Assim que cheguei, deparei-me logo com uma garota linda que sorriu pra mim, isso na entrada. Fui caminhando em direção ao meu destino, reparei pouco nas flores e nas árvores, mas percebi a enorme quantidade de verde que preenchia o tato de meus olhos. Passei por algumas capelas, em uma delas algumas pessoas conversavam, mas não reconheci ninguém.

Logo mais adiante destacava-se um aglomerado de gente, em sua maioria tristes. Um dos gêmeos chorava muito e assim fui reconhecendo as pessoas ao meu redor, algumas olhavam pra mim e faziam um rosto sereno, mas ninguém dizia nada pra ninguém, não pude chegar mais perto, estava muito cheio e todos muito apertados e fixados na cerimônia. Também não sei se queria chegar tão perto.

Caminhei um pouco mais e fui para o outro lado do amontoado, toquei nas costas de alguns amigos, mas também não disse nada, o que se pode dizer nessas horas, foi nesse momento que vi uma das vítimas do tiroteio chorando desesperadamente, acompanhado por sua namorada, encostaram numa árvore que agora não me vem à mente sua espécie, mas creio que era um pé de eucalipto. Arrumei um cigarro, cheguei mais perto, um pouco depois, quando ele estava um pouco mais calmo e ele proliferava em palavras curtas toda sua insatisfação, narrando partes do ocorrido e indagando que poderia ser ele ali. "Quem mundo é esse?" ou algo do gênero, foram as últimas coisas que ouvi de sua boca.

As pessoas começaram a cantar um VIVA gostoso e acolhedor e após bateram palma numa sintonia celestial. Fiquei todo arrepiado. Depois colocaram um rock pra ouvirmos em conjunto, sorri satisfeito e feliz. E assim alguns rostos tristes foram ficando alegres, outros foram embora e o nó cerimonial foi desatando, deixando espaços para que eu pudesse tomar fôlego e ir lá, prestar minha também homenagem visual. Fui, rezei um pouco e o número de pessoas foi diminuindo. Até que só sobraram alguns ao meu lado. Outros de longe, conversando.

Os que ficaram começaram a contar histórias e do nada, todos ali embaixo da pequena tenda armada para proteger a cova, já selada, do sol começaram a rir e cada um que contasse uma parte de um momento. O que me chamou a atenção foram as conversas do tipo do que queremos que tenha em nosso enterro e nesse; faltaram apenas os salgadinhos, pois de mulheres bonitas estava repleto.

Dois dos garotos ali presentes pegaram seus violões e começaram a tocar um blues, não pude resistir, sorri um sorriso cheio de dentes, tirei minha gaita favorita do bolso, sentei à beira de minha própria cova e toquei meu último som com meus grandes amigos. Até que foi divertido.


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Nota do Autor: A garota que sorriu pra mim assim que cheguei ao local da narrativa, estava cantando em pé, ali, junto conosco, olhando fixamente nos meus olhos, senti que ela era única que realmente podia me ver naquele momento.

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